A ideia era simples, mas poderosa: capacitar artistas independentes de Caraguatatuba na produção audiovisual e musical, usando o que eles já tinham nas mãos – no caso do vídeo, um celular. A gente queria mostrar que dá para fazer arte de qualidade, com autonomia, sem depender de grandes orçamentos ou estruturas inacessíveis.
Essa jornada só foi possível graças à Karine Nascimento, a guardiã do Instituto Ciência Nativa. Ela não só escreveu o projeto e idealizou a gestão, mas abriu as portas de um lugar que é muito mais que um espaço físico; é um território sagrado, de saberes ancestrais, acolhendo todo esse movimento que estava por vir.
Foram quatro dias de oficinas teóricas e práticas, divididas em dois finais de semana, sempre no território do Instituto Ciência Nativa. Na primeira semana, mergulhamos na pré-produção: conceito, roteiro, identidade visual, estratégia de redes sociais. Na segunda, colocamos a mão na massa: gravação da música e clipe, e estrutura do lançamento. Na composição do projeto Advan Haschi trouxe toda a sua experiência na produção musical, gravando e produzindo os sons dos artistas e eu, pude contribuir com a minha paixão por contar histórias através das imagens.
⭐ O CONVITE: DE ONDE NASCE A PARCERIA.

Projetos culturais muitas vezes parecem algo distante, mas o “Música in Produção” começou com um gesto de humildade. A Karine Nascimento me convidou para assumir a parte de vídeo de um jeito que me marcou. Naquela época, eu estava num momento de transição: trabalhava com equipamentos de vídeo que pertenciam a outro projeto cultural. Eu não tinha minhas próprias ferramentas profissionais. O que eu tinha era a experiência e a vontade, mas o hardware não era meu.
Quando o recurso do edital PNAB chegou, a primeira grande transformação aconteceu antes mesmo de ligarmos a câmera para o primeiro artista. Com o valor que recebi, pude investir no meu primeiro equipamento oficial de trabalho desde a GoPro que comprei nos tempos de navio: um iPhone 15 Pro.
Pode parecer apenas um celular, mas para quem vive da imagem, ter a própria ferramenta é o primeiro passo para a autonomia. O projeto já começou me fortalecendo ali, no ato da compra. Foi com esse iPhone, conquistado através do incentivo à cultura, que registramos tudo o que você vai ler e ver aqui.
🎯 O QUE FOI O MÚSICA IN PRODUÇÃO
O projeto “Música in Produção” não começou com a câmera ligada. Começou no papel, no corre burocrático que a Karine Nascimento mergulhou para escrever o projeto para o edital da Lei Aldir Blanc em Caraguatatuba. Quando ela me convidou humildemente para participar, o desafio era real: como fazer esse recurso chegar em quem realmente precisa?
Estruturamos um edital que não era só uma lista de documentos. Era um manifesto de prioridades. Criamos critérios de pontuação baseados na nossa realidade: ser mulher preta, indígena, mãe solo, pessoa trans ou morar na periferia somava pontos extras. Não era sobre quem tinha o melhor microfone ou mais seguidores no Instagram; era sobre quem tinha a vivência que o mercado insiste em ocultar.
Daí então, produzimos um vídeozão para rodar trafego nas redes sociais e o projeto circular para que a galera fizesse a inscrição. Queríamos que o artista de quebrada soubesse que aquele espaço era dele por direito. Analisar cada inscrição foi um exercício de bastante paciência, atenção e cuidado, conscientes de que o ponto de partida na periferia é quilômetros atrás de quem nasce da ponte pra lá. No final, selecionamos seis potências que refletiam exatamente essa diversidade que a gente buscou desde a primeira linha do edital.
Mas a vida real é o que é: um artista desistiu na véspera de começar. Seguimos com cinco que entregaram tudo: Leo DRK, Maria Diva, Kayla Makena, Jatay (Thay) e Fada Bruxa (Fe). Ver esses nomes no papel, depois de todo o corre de seleção, foi entender que o edital tinha cumprido sua primeira missão: dar o microfone para quem sempre teve a voz abafada pelo sistema.

🎙️ A OFICINA DE PRODUÇÃO MUSICAL COM ADVAN HASCHI

O Advan é um garoto de favela do Vale do Paraíba que ganhou o Brasil e o mundo com a música medicina, viajando pelo nosso e outros países, sempre levando muita força e consciência para os lugares onde passa. Ter ele ao lado, dividindo essa jornada no território do Instituto, foi altas vivências.
A trajetória do Advan é baseada no autodidatismo. Ele aprendeu a gravar, produzir e editar seus próprios clipes e músicas na raça, testando, errando e fazendo o melhor que podia com as ferramentas que tinha na mão. Essa caminhada é algo que me identifico muito. Quase tudo o que eu faço hoje com vídeo — inclusive este próprio artigo — foi construído assim: sozinho, na frente da tela, aprendendo no YouTube e testando na prática.
A gente é fruto da tecnologia da sobrevivência. Pra quem vem de quebrada, as ferramentas não chegam; a gente precisa fazer um corre dobrado pra conseguir qualquer tipo de acesso. É por isso que é uma honra poder aprender com um irmão de quebrada sobre tecnologia, música, edição ou o que quer que seja. É um progresso compartilhado, uma troca entre irmãos e irmãs que estão no mesmo corre, subvertendo a lógica do “moinho de gastar gente” que Darcy Ribeiro tanto criticava.
No projeto, os artistas já traziam suas músicas — alguns com beats prontos, outros tocando e cantando. O trabalho do Advan foi captar a alma de cada uma dessas faixas. Usando microfones de fita, ali mesmo no Instituto, ele gravou as vozes e depois produziu, mixou e masterizou cada música, dando uma identidade única para cada artista.
Mas o objetivo ia além de entregar uma música pronta. O Advan focou em mostrar o caminho da produção independente: como produzir, como lançar, como entender seus direitos autorais e as diretrizes das plataformas de streaming. Foi um processo de abrir o mapa e compartilhar as chaves que muitas vezes escondem da gente. Ver um artista com a trajetória dele, que veio da mesma base que essa galera, passando a visão para que cada um pudesse seguir o próprio caminho com segurança, foi um dos pontos mais potentes de toda essa vivência. É a música como ferramenta de liberdade, feita por quem sabe que a verdadeira revolução acontece quando a gente deixa de depender de atravessador e passa a ser dono da própria história.
🧠 A OFICINA DE VÍDEO: MENOS TÉCNICA, MAIS NARRATIVA

Preparar uma oficina é um desafio que te coloca de frente com a complexidade do seu próprio corre. Na real, eu não sigo uma metodologia, um padrão ou um script pronto. O meu corre é feito de aceitar desafios constantes para sobreviver, assumindo responsabilidades que muitas vezes eu nem sei se tenho plena capacidade, mas que no final a gente sempre dá um jeito. Passar isso pra frente foi um exercício de superação. Eu queria entregar algo que fizesse diferença no dia a dia daquelas pessoas, sem que a dificuldade técnica as afastasse.
No cenário atual, a presença digital é fundamental para qualquer artista. Mas, mais do que apenas “estar presente”, queríamos ajudar a “ser autêntico” e a “conectar de verdade” com o público através da verdade. Ao longo de todos esses anos criando — ou tentando criar — conteúdo, durante muito tempo eu copiei coisas que diziam que davam certo, mas que nunca traziam resultado. Foi só quando comecei a caminhar descobrindo e transparecendo a minha própria verdade do corre que as coisas mudaram. A sua voz, a sua história e a sua verdade são os seus maiores diferenciais.
Nesta jornada, compartilhamos conhecimentos práticos e teóricos, baseados na nossa própria experiência com o projeto Altas Ideias. Mostramos que é possível criar conteúdo de alta qualidade usando as ferramentas que já estão no bolso. Para estruturar esse enfrentamento do desafio de ensinar, dividi a oficina em módulos que guiaram os artistas:
Módulo 1: Encontrando sua Voz: Focamos no poder da autenticidade e na construção de uma identidade visual que fosse a expressão visual da alma artística de cada um, além do storytelling para aprenderem a contar suas próprias histórias.
Módulo 2: Mãos à Obra: Onde o celular virou a câmera principal. Trabalhamos a importância do áudio e a prática de captar imagens de cobertura (B-roll) para dar ritmo e dinamismo aos vídeos.
Módulo 3: Ferramentas para Empoderar: Onde a tecnologia entrou para somar. Usamos Inteligência Artificial para criar a identidade visual e as capas dos singles, mostrando que a inovação pode e deve estar a serviço da nossa essência. Também instruímos cada participante a criar e configurar seu próprio canal no YouTube. Passamos pela parte técnica de monetização, SEO e como publicar da maneira correta para dominar a plataforma.
Para concluir, entrevistei cada artista individualmente para a série do canal sobre o projeto. Queria que eles tivessem um espaço para contar suas histórias, seus corre na vida e na música, e falar de seus sonhos. A ideia não era apenas entregar o clipe pronto, mas criar uma colab real: as entrevistas foram publicadas no meu canal para incentivar e ampliar o alcance de cada um, mesmo que pareça pouco, é o começo de uma rede de apoio. Esses vídeos já estão no ar, postados em colaboração, e são o registro vivo de uma transformação que começou na mata e agora ocupa o mundo digital.
🌿 A IMERSÃO NO INSTITUTO CIÊNCIA NATIVA

No intervalo entre o final de semana de teoria e o de prática do projeto, o tempo parou um pouco. Nesse ritmo, aconteceu uma cerimônia de Ayahuasca que foi muito especial. Estávamos apenas nós três — eu, a Karine e o Advan. A gente, que ao longo dos últimos meses esteve falando de tantas ferramentas digitais, dessa vez nos permitindo navegar no estudo dessa tecnologia que, pra mim, é a mais fascinante de todas.
O Instituto Ciência Nativa não é fundamentado no “turismo espiritual”, é estudo e responsabilidade. Esse é um dos poucos lugares no mundo onde eu me sinto realmente seguro. A Karine tem um trabalho foda: ela une a sabedoria ancestral Shipibo com o estudo sério da saúde mental e o respeito pela ciência. Ao lado dela, o Advan traz uma força que vai muito além da música. Ele é um cara extremamente consciente das questões políticas e sociais, sempre com diálogos ativistas que desafiam essa espiritualidade rasa de “só luz e vibração positiva”. Essa luta reflete também no trampo. Se o som dele já é potente nas plataformas, ao vivo é outra dimensão — a floresta balanceia.
No silêncio da mata, a benção da “madrecita” Ayahuasca serviu para alinhar as energias e blindar o que a gente estava construindo. O trabalho do Instituto Ciência Nativa vai muito além do que posso descrever aqui. Para quem quiser sentir um pouco mais dessa atmosfera e entender a profundidade dessa vivência, fiz um vídeo no canal contando mais sobre essa experiência no Instituto:
Se você busca esse tipo de experiência com seriedade, procure conhecê-los.
🎬 A HORA DA VERDADE: GRAVAÇÃO, EDIÇÃO E DISTRIBUIÇÃO

Depois de toda a preparação teórica e do fortalecimento espiritual no Instituto, chegou o momento mais esperado. O processo de gravação foi intenso e, de certa forma, cru: música e clipe nasceram praticamente no mesmo instante. Enquanto o Advan captava a voz com os microfones de fita, eu estava ali com o iPhone registrando a entrega de cada artista. Não teve “playback” ou encenação; o que você vê nos clipes é o artista vivendo a música naquele exato momento.
Para compor a estética final, usei o material que os próprios artistas captaram durante a semana, seguindo as orientações da oficina. Eles trouxeram o olhar deles, o cotidiano e os detalhes que faziam sentido para suas histórias. O meu trabalho foi transformar esse mosaico de imagens em uma narrativa coesa. Juntei a minha captação principal com esse “B-roll” autêntico que eles produziram, criando um resultado que é, de fato, uma construção coletiva.
Mas o “corre” não termina quando a câmera desliga. A parte que ninguém vê é o pós-glória: passei quase um mês trancado em casa, sozinho, editando cada frame, ajustando cada corte e garantindo que a alma de cada música estivesse impressa no vídeo. Foi exaustivo, mas ver o resultado final ganhando corpo foi a maior recompensa. O projeto se materializou em uma série de entrevistas e clipes que agora ocupam o mundo. Para quem quiser conferir o resultado desse esforço, as playlists estão todas no ar:
🎥 LINK DA PLAYLIST: ENTREVISTAS COM OS ARTISTAS
🎥 LINK DA PLAYLIST: VIDEOCLIPES MÚSICA IN PRODUÇÃO
📱 O LEGADO E O PRÓXIMO PASSO: O CORRE NÃO PARA

O projeto “Música in Produção” não parou na edição final. Graças à curadoria e ao conhecimento técnico do Advan, as músicas foram distribuídas em mais de 25 plataformas de streaming, garantindo que o som da periferia de Caraguatatuba batesse forte em qualquer lugar. Ver o Leo DRK, a Maria Diva, a Kayla Makena, a Jatay e a Fada Bruxa com seus próprios canais no YouTube, suas identidades visuais prontas e seus clipes no ar, é a prova de que a autonomia é o maior legado que poderíamos deixar.
Mas esse projeto é apenas uma parte de um propósito muito maior que venho construindo com o Altas Ideias. Tudo o que você leu aqui — a superação, a tecnologia da sobrevivência, a busca pela autenticidade e a coragem de fazer na raça — tem uma raiz profunda. Se você se conectou com essa jornada e quer entender de onde vem toda essa força e os bastidores reais da minha trajetória, convido você a conhecer o meu livro: “50 Centavos de Coragem”.

A tecnologia da sobrevivência e o impacto da Lei Aldir Blanc na periferia
mergulhe na história que sustenta todo esse propósito e fortaleça para que o Altas Ideias a seguir transformando o Brasil que pode ser.
✊🏽 O QUE FICA

Se você chegou até aqui, é porque de alguma forma essa história ressoou em você. O projeto “Música in Produção” foi muito mais do que um edital ou um conjunto de clipes; foi uma prova viva de que a tecnologia da sobrevivência, quando unida à ancestralidade e ao corre coletivo, transforma realidades.
Agora eu quero saber de você: o que achou dessa jornada? Qual dos artistas ou qual música mais bateu forte aí? Se você também é um artista independente ou está no corre da criação, como tem sido a sua trajetória com as ferramentas que tem na mão?
Deixa seu comentário aqui embaixo! Vamos trocar essa ideia. Se esse conteúdo te inspirou ou se você acha que mais gente precisa conhecer o trampo dessa galera de Caraguá, curte e compartilha este artigo. Cada compartilhamento ajuda a voz desses artistas a furar a bolha e chegar onde precisa.
O Altas Ideias é feito de gente, de verdade e de quem acredita no Brasil que pode ser. Obrigado por fortalecer esse propósito e por caminhar junto com a gente.
Tamo junto,
📱 Siga o Altas Ideias no Instagram: @altasideias



Deixe um comentário