O Voluntariado, A Estrada e a Coragem de Recomeçar

“Talvez a vida que a gente tanto busca esteja escondida justamente atrás daquilo que mais nos assusta.”

10–16 minutos

Durante muito tempo eu acreditei que liberdade fosse coisa de gente rica.

Algo reservado pra quem nasceu numa outra realidade.

Pra quem tinha berço. Pra quem falava inglês. Pra quem tinha incentivo. Pra quem sabia o que queria da vida.

Eu não tinha nada disso.

O que eu tinha era uma inquietação desconfortável.

Sentia como se minha vida estivesse acontecendo longe demais de quem eu realmente era, ou gostaria de ser.

Trabalhei no telemarketing, vendi café na porta do metro. Didiquei alguns bons anos fechado em cozinhas e confeitarias de restaurante, até em navio de cruzeiro… e apesar de ser grato por tudo que vivi, chegou um momento em que já não dava mais pra ignorar aquela voz interna perguntando:

“Mas eaí. É só isso?”

Não era tristeza exatamente.

Era desconexão.

O sentimento de estar sobrevivendo dentro de um modelo de vida que nunca havia parado pra questionar.

E acho que muita gente vive assim.

Acorda. Trabalha. Volta pra casa. Consome distrações. Dorme. Repete.

Sem nunca parar pra entender se aquilo realmente faz sentido.

Foi nesse período que comecei a me aprofundar em leituras sobre espiritismo, reflexões e viagens internas.

E poucas obras me atravessaram tanto quanto “O Alquimista”, do Paulo Coelho.

Esse livro é foda.

Fala sobre coragem.

Sobre a dificuldade que existe em abandonar aquilo que é seguro para seguir uma parada que a gente ainda nem consegue explicar direito.

Santiago tinha suas ovelhas. Eu tinha minhas certezas.

E talvez o mais assustador da vida adulta seja cair na real que somos nós que construímos nossas próprias prisões de conforto pra sustentar uma ilusão de estabilidade.

Costa Pacífica, 2018
Costa Pacífica, 2018

Procurando Formas de Fugir ༄

Depois de desembarcar de nove meses trabalhando em navio com jornadas absurdas e sem folga, eu voltei com uma certeza:

não queria continuar vivendo daquele jeito.

Mas aí tinha um problema:

Eu não sabia fazer muita coisa profissionalmente.

Isso é mil grau.

Porque abandonar um caminho conhecido parece bonito em vídeo motivacional.

Na vida real dá medo pra caralho.

Especialmente quando você vem de uma realidade onde errar custa caro e o povo julga sem dó.

Mas mesmo assim, alguma coisa dentro de mim já tinha entendido que ficar parado também tinha um preço alto.

E foi nesse contexto que comecei a pesquisar na internet outras formas possíveis de viver.

Outras formas de viajar.

Outras formas de trabalhar.

Outras formas de existir.

E foi nessa busca que encontrei os vídeos de um maluco chamado Almir Junior.

Ele falava sobre viajar sem dinheiro.

Dormir de graça.

Fazer voluntariado.

Vender brigadeiro na rua.

Tocar música.

Improvisar.

Conhecer gente pelo caminho.

E honestamente?

Parecia bom demais pra ser verdade.

Existe uma barreira psicológica muito forte quando você cresce sem referência de pessoas parecidas com você ocupando certos espaços.

Você olha aquilo e pensa:

“isso deve funcionar pra outro tipo de pessoa… não pra mim.”

E acho importante falar também sobre privilégio.

Porque mesmo sendo fruto da classe oprimida, eu ainda entendia que existiam portas que se abriam pra mim com mais facilidade simplesmente por ser homem, pardo.

A estrada também me ensinaria isso mais tarde.

Mas naquelas épocas, antes de qualquer reflexão mais profunda, eu não me sentia confiante de que aquele mundo da viagem poderia ser um dia à minha realidade.

Mas eu revirei o YouYube e comecei a encontrar outras referências.

Pessoas que não estavam vivendo viagens clichês.

Nem vendendo aquela estética instagramável de aeroporto e resort que domina as redes.

Pessoas vivendo a estrada de forma humana.

Possível.

Real.

Foi aí que encontrei também o trabalho da Uma Sul-Americana, criado pela Ali.

E aquilo mexeu muito comigo.

Pela primeira vez eu via alguém transformando viagem em vivência, reflexão e consciência — e não apenas consumo de lugares e turismo de Instagram.

A Ali ja havia dado uma volta sozinha pela América do Sul, escrevendo sobre ancestralidade, território, cultura, deslocamento e experiências de uma forma muito mais profunda do que simplesmente “dicas de viagem”.

um salve de agradecimento a Ali também por ter me inspirado a criar esse blog!

Foi importante encontrar pessoas assim no caminho.

Porque às vezes, mais do que coragem, o que a gente precisa talvez é de referência.

Ver com os próprios olhos que existe vida possível fora do roteiro padrão.

Foi nesse contexto que o voluntariado começou a aparecer pra mim não apenas como uma forma barata de viajar…

…mas como uma possibilidade real de movimento.

E sem perceber, eu já estava começando a atravessar aquela porta.

Quando Descobri Que Era Possível Viajar
Trocando Trabalho por Hospedagem ⌯✈︎

Quanto mais eu pesquisava sobre viagem e mochilão, mais essa palavra começava a aparecer:

voluntariado.

No começo achei estranho.

Parecia até golpe.

Como assim existiam pessoas viajando o mundo a fora “fulltime” por meses ou anos trocando algumas horas de trabalho por moradia e alimentação?

Mas quanto mais eu pesquisava, mais percebia que existia um universo inteiro funcionando assim.

Hostels.

Ecovilas.

Fazendas.

Projetos sociais.

Campings.

Comunidades.

Espaços culturais.

Pessoas recebendo viajantes em troca de colaboração.

E aquilo começou a mexer profundamente comigo porque pela primeira vez viajar deixava de parecer uma brisa distante da mente.

Descobri plataformas como:

Mas a que mais me conectou foi a Worldpackers.

Primeiro porque é uma empresa brasileira.

Depois porque a plataforma parecia muito mais organizada e segura pra alguém que nunca tinha feito aquilo antes.

As avaliações.

Os perfis.

Os relatos.

Os filtros.

As experiências.

E acho importante falar isso, mais uma vez, combatendo a romantização nessa ideia de “largar tudo”.

No corre da vida real, quando você vem de uma realidade onde dinheiro sempre foi preocupação, tomar uma decisão incerta não soa como liberdade.

Parece irresponsabilidade.

E talvez essa tenha sido uma das partes mais difíceis:

diferenciar medo de condicionamento.

Porque existe uma linha tênue entre prudência e brisa da mente.

Lembro da sensação de comprar a passagem.

Parecia que eu estava atravessando um portal sem entender nada do que existia do outro lado.

Uma parte de mim acreditava que aquilo poderia mudar minha vida.

A outra achava que eu estava chapando nas ideias.

E talvez as duas estivessem certas.

a vida antiga ficando pra trás – Morro da Caixa, 2019

Como você explica pra alguém que pretende atravessar a América do Sul praticamente sem dinheiro, fazendo voluntariado, e improvisando no caminho?

Pouquíssimos entenderiam.

A verdade é que eu não estava preparado.

E acho curioso perceber isso hoje, porque eu acreditava que mudanças importantes iriam acontecer quando finalmente eu me sentisse pronto.

Mas as maiores transformações da minha vida aconteceram quando eu agi mesmo sem ter segurança do que poderia acontecer depois.

A ideia inicial era simples:

atravessar a América do Sul gastando o mínimo possível.

Fazer voluntariado.

Vender alguma coisa na rua, tocar no metrô, nas praças;

Improvisar trabalhos pelo caminho.

Conhecer pessoas.

Documentar experiências.

Na teoria parecia aventura.

Na prática, eu estava prestes a confrontar:

  • medo;
  • escassez;
  • solidão;
  • ego;
  • vulnerabilidade;
  • e versões minhas que eu ainda nem conhecia.

Aquela viagem começou muito antes da primeira fronteira.

🎭 Montevidéu: O Momento em Que Acaba a Fantasia

Meu primeiro voluntariado pela Worldpackers era na capital do Uruguai.

E lembro claramente da sensação de atravessar a fronteira.

Porque até aquele momento tudo ainda parecia meio abstrato.

A viagem existia.

Mas emocionalmente eu ainda não tinha entendido completamente o tamanho do que estava fazendo.

Só que bastaram poucos dias pro encanto inicial começar a rachar.

Cheguei no Uruguai com cerca de R$1000 tentando fazer aquele dinheiro durar o máximo possível.

Minha lógica parecia simples:

fazer voluntariado, vender brigadeiro ou tocar nas ruas, pegar uns freelas na cozinha ou de garçom e ir me mantendo pelo caminho.

Na internet aquilo parecia funcionar muito bem.

Na vida real, a história começou diferente.

Eu tinha chegado justamente próximo da semana santa.

Montevidéu esvaziou total.

Pouca gente na rua.

Pouco movimento.

Quase ninguém comprando nada.

Pra piorar, minha conta bancária bloqueou porque eu nem sabia que precisava avisar o banco sobre uso internacional.

E foi ali que pela primeira vez a viagem deixou de parecer liberdade… e começou a ameaçar perigo.

Lembro de entrar no mercado contando moeda.

Bendita hora que descobri quão caro era o Uruguai. Tive de deixar boa parte da comida no caixa.

Lembro de viver praticamente à base de arroz e lentilha por uns 4 dias.

E nessa hora apenas uma pergunta martelava minha cabeça:

“que porra eu vim fazer aqui?”

Porque uma coisa é assistir vídeos sobre viajar sem dinheiro.

Outra completamente diferente é estar sozinho em outro país que tu nem fala o idioma percebendo que talvez você realmente tenha pouca grana demais.

Hoje eu acho importante contar isso porque existe muita gente que desiste dos próprios sonhos na primeira dificuldade.

Talvez exista uma coisa que só aparece quando a vida sai completamente do controle:

a possibilidade de descobrir quem você é sem todas as estruturas que costumavam te definir.

E sem perceber, era exatamente aí que minha verdadeira viagem estava começando.

Fronteira Uruguai - Argentina. 2019

Quando o universo assume o controle ✨

Eu te contei que terminei a última parte dormindo com fome em Montevidéu, com a conta bloqueada e a mente pesada.

Pois bem. Foi ali, sozinho e com fome, encolhido na cama de um quarto compartilhado de hostel, que eu me fiz a pergunta classica de todo mundo que, um dia, por vontade ou teimosia, se colocou numa furada:

“Que merda eu vim fazer aqui?”

Mas sabe o que é mais louco? No meio daquele silêncio, a resposta veio. Não em palavras. Veio na forma de uma notificação do celular. A Worldpackers, DO NADA, me enviou um convite para um voluntariado urgente em Buenos Aires.

Quase na mesma hora em que meu banco resolveu desbloquear a conta.

E ali eu entendi o que o Paulo Coelho escreveu: “Quando você quer alguma coisa, todo o Universo conspira.” Só que o Universo não manda Pix, ele manda sinais. E o meu sinal era claro: não volte, mano. Siga.

R$ 650,00 era tudo que eu tinha. Daria pra deixar quieto essa brisa de viajar e voltar com uma mão na frente e outra atrás pra SP.

A outra opção era comprar uma passagem pra Buenos Aires e ver o que o universo guardava pra mim do lado de lá.

E adivinha o que foi que eu fiz?

Entre milhares de viajantes cadastrados na plataforma a Marina me encontrou no momento em que eu mais precisava

Buenos Aires.

Então atravessei a fronteira sem fazer ideia de que aquela cidade acabaria marcando uma virada de chave na história da minha vida.

Porque Buenos Aires não resolveu magicamente os problemas da viagem.

Mas foi talvez o primeiro lugar onde a estrada começou a parecer menos hostil.

O hostel ficava em San Telmo, um bairro cheio de:

  • música na rua;
  • arte;
  • prédios antigos;
  • Parques;
  • Museus;
  • viajantes;
  • gente vivendo de formas completamente diferentes daquilo que eu conhecia.

E acho que uma das coisas mais fortes da viagem foi justamente perceber quantas vidas possíveis existem fora da bolha onde eu cresci.

No Brasil, eu tinha me acostumado a enxergar a vida quase sempre pela lógica da sobrevivência.

Trabalhar.

Pagar conta.

Repetir.

Mas ali comecei a conhecer:

  • artistas;
  • mochileiros;
  • músicos;
  • fotógrafos;
  • viajantes;
  • pessoas trabalhando remotamente;
  • gente vivendo com muito menos dinheiro… e às vezes com muito mais presença.

E isso bagunçou minhas ideias.

Porque pela primeira vez eu conseguia visualizar que talvez existissem outras formas de construir existência.


O que ninguém te conta sobre voluntariado  ✨


Naquela epoca o peso argentino era 10 pra 1 em relação ao real – pesquisa hoje…


Em Buenos Aires, no Hostel Inn San Telmo, a coisa clareou. Eu trabalhava 3 dias na semana na recepção das 15h as 23h. O resto do tempo? Meu.

Comecei a vender brigadeiro na rua. Depois, brownie. Trampei vendendo passeios turísticos. Depois, encontrei um restaurante brasileiro. Em pouco tempo, eu morava e comia de graça, fazia minha grana, e ainda dava um baita rolezão. Realizei um sonho lá: passei meus 26 anos assistindo ao Djavan no Teatro Gran Rex. Chorei igual criança.

Po, voluntariado não é “trabalhar de graça”. É trocar esforço por pertencimento. Tu vive num lugar onde você não é turista, mas também não é morador — eu diria aprendiz.

Ali eu tava começando a perder o medo de ficar sozinho, de ficar sem dinheiro, de não saber pra onde ir. Percebi que, se eu estivesse atento aos sinais, esse caminho poderia se formar sozinho.

Eu voltei dessa viagem convencido de que: uma vida inteira pode mudar a partir de movimentos muito pequenos. E o meu movimento mais importante foi aceitar que eu não de sabia nada e começar a andar mesmo assim.

O que eu te contei aqui é apenas a ponta do iceberg.

resto da travessida — de carona até o Oceano Pacífico, Valparaíso, Deserto do Atacama, a Bolívia, Los Andes no Peru, o “Trem da Morte”, as pessoas, os apegos, os amores que me salvaram, os preconceitos que precisei desaprender.. — está tudo detalhado no livro.

[EBOOK] R$ 0,50 Centavos de Coragem: O suficiente para transformar nossa vida significativamente

Algumas das histórias mais intensas dessa travessia — incluindo os bastidores de Montevidéu, os dias sem dinheiro, os encontros na estrada e as transformações que vieram depois — fazem parte deste livro;

Mais do que um livro sobre viagem, essa obra fala sobre medo, movimento, identidade e a busca por uma vida que faça sentido.

No livro você vai descobrir:

  • Como eu arrumei o trampo e sobrevivi 9 meses num navio com 4 mil tripulantes sendo o único brasileiro (e como isso me ensinou inglês na marra).
  • O significado que encontrei pra “descolonizar o pensamento” na prática, e não apenas no discurso.
  • O dia que beijei um cara num jogo de verdade ou desafio e como isso quebrou uma corrente de preconceito que vêm de gerações.
  • O passo a passo (com erros e acertos) para viajar a América do Sul com menos de R$ 1.500 no bolso, usando plataformas como Worldpackers, Couchsurfing e a economia do afeto.
  • e muito mais!!!

📖 Quer ler essas histórias e se inspirar em outras formas de trazer essa coragem pra sua própria vida?

Esse primeiro passo, às vezes, custa só 50 centavos de coragem.

🎥 Veja o Voluntariado na prática!

.

📹 O passo a passo para você começar:
→ Tudo o que ninguém te conta sobre plataformas, segurança e primeiros passos.

📹 Uma ação com o propósito::
→ Porque voluntariado também é cuidar do planeta enquanto a gente se cuida.

Depois de assistir, me conta aqui nos comentários: você já fez algum voluntariado? Ou ainda tem medo de começar? Vou responder todo mundo que compartilhar a experiência.”

📱 Siga o Altas Ideias no Instagram: @altasideias


 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *